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Uso do Controle Biológico na Agricultura Orgânica

Confira o artigo sobre o uso do controle biológico na agricultura orgânica, escrito por Guilherme Liberato da Silva, et all

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1. Conceito importantes

a. Pragas

Dentro do vasto filo dos artrópodes, insetos e ácaros destacam-se como pragas importantes por causa dos danos que causam e da necessidade de aplicação de estratégias para seu manejo e controle (OMOTO; GUEDES, 2000). Assim, o termo “praga” refere-se a qualquer forma de vida vegetal ou animal, ou a qualquer agente patogênico danoso de vegetais ou produtos armazenados, que atinja o nível de dano econômico (NDE) (NORRIS et al., 2003). As pragas têm a capacidade de reduzir a produção das culturas ao atacá-las, além de serem transmissoras de doenças (principalmente viroses) e reduzirem a qualidade dos produtos agrícolas. Este NDE é caracterizado pela integração de fatores biológicos e econômicos, a fim de tornar os resultados de uma tomada de decisão para o controle da praga lucrativa, isto é, quando a densidade populacional da praga é capaz de causar prejuízos iguais ou superiores ao valor do custo de controle. Existem quatro exemplos de pragas: (1) O organismo não-praga: é aquele cuja densidade populacional nunca atinge o nível de controle; (2) Pragas secundárias: raramente atingem o nível de controle; (3) Pragas frequentes (Praga-chave): frequentemente atingem o nível de controle; (4) Pragas severas (Praga-chave): o ponto de equilíbrio é sempre maior que o nível do dano econômico.

Segundo Moraes e Flechtmann (2008), várias espécies de ácaros são consideradas pragas severas de diversos cultivos; logo, são imprescindíveis estudos e pesquisas a respeito deles, a fim de desenvolver técnicas de manejo agrícola adequadas. As perdas causadas pelo ataque de ácaros nos cultivos agrícolas são significativas (BUENO et al., 2009). Mesmo em baixas densidades populacionais, os ácaros fitófagos podem prejudicar a capacidade fotossintética da planta, notada, principalmente, em função do fechamento estomático. Sabe-se hoje que ácaros fitófagos alimentam-se do conteúdo citoplasmático dos mesófilos da planta (BENSOUSSAN et al., 2016).

Além disso, as pragas são documentadas, desenvolvendo resistência a inúmeros pesticidas (SATO et al., 2009). Além disso, o produto químico, na maioria das vezes, elimina as populações de organismos benéficos, criando involuntariamente a dependência dos químicos para efetuar o controle. Controlar os surtos de pragas vem sendo uma tarefa difícil, ainda mais, porque o uso de produtos químicos como forma de controle pode causar problemas de contaminação, sendo prejudicial ao ambiente e à saúde (GARCIA; CHIAVEGATO, 1997).

b. Predadores

O termo “predador” refere-se a um organismo de vida livre, que, durante o ciclo de vida, mata a presa, requerendo mais de um indivíduo na sua dieta para completar todo desenvolvimento (PARRA et al., 2002). Como consequência do sucesso da predação, os predadores dominam seus hospedeiros ou presas, para, posteriormente, matá-los e consumilos. Diversos predadores utilizam estratégias de caça, utilizando camuflagem, emboscadas, a fim de evitar assim a fuga ou a defesa por parte da presa. Tal inter-relação entre os dois organismos (predador e presa) é moldada ao longo da evolução, geralmente, através do convívio na mesma localização. Existem basicamente duas categorias de predadores: as espécies generalistas e as específicas. As generalistas possuem um nicho ecológico amplo, adaptando-se melhor às variações ambientais. Este grupo de predadores apresenta uma dieta alimentar ampla, pois consome diferentes grupos de presas. Assim despende pouco tempo em busca de recursos alimentares, ou seja, gasta pouco tempo e recursos energéticos nas demandas alimentares (MCMURTRY; CROFT, 1997; SHEEHAN, 1986). Já as espécies consideradas especialistas têm um nicho ecológico restrito, sendo mais suscetíveis à extinção, caso ocorram grandes variações no ambiente. Além disso, a dieta é específica e correlacionada com a presa. Os especialistas necessitam geralmente de muito mais tempo para ir atrás da presa; no entanto, quando encontrada, procuram consumir o máximo de recurso possível, adquirindo assim um grande ganho energético, o que compensa seu gasto de energia no tempo de forrageio (MCMURTRY; CROFT, 1997).

c. Parasitoides

Os parasitoides, introduzidos em programas de Controle Biológico e pertencentes à ordem Hymenoptera da classe Insecta, são importantes elementos da fauna neotropical, cujo papel é o controle da população de outros insetos (PARRA et al., 2002). Hoje em dia, sua utilização é um sucesso imenso, pois estes himenópteros parasitoides frequentemente são utilizados no controle biológico e/ou integrado de pragas agrícolas. Também são conhecidos como “vespinhas”, devido ao pequeno tamanho da maioria das espécies que a compõe (QUICKE, 1997).

Estes organismos são incluídos na categoria de parasitoides; no entanto, eles matam seu hospedeiro exigindo apenas um indivíduo para completar seu desenvolvimento. Já o indivíduo adulto tem vida livre. As larvas dos parasitoides podem desenvolver-se tanto sobre como no interior do corpo do seu hospedeiro (LA SALLE, 1993). Dependendo da localização específica onde parasita seu hospedeiro, recebem a denominação de ecto ou de endoparasitoides (SITHANANTHAM et al., 2013). São classificados em dois grupos: (1) fêmeas idiobiontes: antes da oviposição, imobilizam ou matam o hospedeiro, que pode estar na fase de ovo, larva, pupa ou adulto. Assim, ao eclodir, a larva do parasitoide disporá de uma fonte de alimento indefesa; (2) Fêmeas cenobiontes: permitem que os hospedeiros continuem seu desenvolvimento após a oviposição, mas morrem numa fase mais adiantada. Tais características dão a oportunidade ao parasitoide de regular a fisiologia do seu hospedeiro (VINSON; IWANTSCH, 1980; SITHANANTHAM et al., 2013).

2. Produtos biológicos

Entre os controladores biológicos mais vendidos no Brasil estão os parasitoides Trichogramma pretiosum Riley, 1879, T. galloi Zucchi, 1988; Cotesia flavipes (Cameron, 1891); os ácaros Phytoseiulus macropilis (Banks, 1905); Neoseiulus californicus (McGregor, 1954).

a. Trichogramma pretiosum e T. galloi

Espécies do gênero Trichogramma constituem um dos grupos de inimigos naturais mais estudados e utilizados atualmente no mundo. São endoparasitas de ovos, que apresentam ampla distribuição geográfica e grande número de hospedeiros (HAJI et al., 2002). Além disso, as criações são facilmente mantidas em laboratório com hospedeiros alternativos, garantindo sucesso na produção e na comercialização (WANG et al., 2014). Sua preferência é por ovos de Lepidoptera; no entanto, parasitam cerca de 200 espécies pertencentes a 70 famílias de insetos, todas de importância agrícola (MORRISON, 1985).

No mundo, o Trichogramma pretiosum é um dos parasitoides mais utilizados em função da sua facilidade de adaptação a habitat e a hospedeiros. Além disso, é o parasitoide encontrado com maior frequência no Brasil. Já o T. galloi é uma espécie nativa do Brasil, associado à broca-da-cana (HAJI et al., 2002; QUERINO; ZUCCHI, 2011).

Os Trichogramma pretiosum e T. galloi são produzidos e vendidos com autorização do Ministério da Agricultura e Abastecimento, por seis empresas no Brasil (BRASIL, 2019a). O Trichogramma pretiosum é indicado para o controle de Anticarsia gemmatalis Hübner, 1818 (lagarta da soja); o Pseudoplusia includens (Walker, 1857) (lagarta falsa medideira); a Tuta absoluta (Meyrick, 1917) (traça do tomateiro); Spodoptera frugiperda (Smith, 1797) (lagarta do cartucho); o Helicoverpa zea (Boddie, 1850) (largarta da espiga), em todas as culturas onde as espécies de pragas podem ocorrer. O Trichogramma galloi é indicado para o controle de Diatraea saccharalis (Fabricius, 1974) (broca do colmo), em todas as culturas com a ocorrência da praga.

b. Cotesia flavipes

Esta espécie de parasitoide é utilizada em programas de controle biológico em aproximadamente 40 países, desde 1950, distribuída nos continentes asiático, africano e americano (MUIRHEAD et al., 2006). Foi introduzida no Brasil, em 1978. Os adultos são pequenas vespas de 3 a 4 mm de comprimento. Seu ciclo de vida se completa em aproximadamente 20 dias (SANTOS, 2009; PINTO et al., 2006).

As fêmeas do parasitoide têm preferência pela lagarta de Diatraea saccharalis (Fabricius, 1974) (broca do colmo). Após localizar a broca do colmo, o parasitoide oviposita de 60 a 65 ovos dentro do hospedeiro (MACEDO, 2000). Após três a quatro dias, ocorre a eclosão das larvas, que completam o desenvolvimento em doze dias, quando perfuram o tegumento da lagarta, matando-a (MACEDO; ARAÚJO, 2000; PARRA, 2000). Os adultos, se alimentados, vivem aproximadamente 34 horas a uma temperatura média de 25°C (SANTOS, 2009).

O Cotesia flavipes é produzido e vendido, com autorização do Ministério da Agricultura e Abastecimento, por 28 empresas no Brasil (BRASIL, 2019a), sendo indicado para o controle de D. saccharalis, em todas as culturas com ocorrência da praga.

c. Phytoseiulus macropilis

O Phytoseiulus macropilis é um ácaro predador especializado no controle de ácaros fitófagos do gênero Tetranychus (MCMURTRY; CROFT, 1997). Essa espécie tem sido utilizada no controle de Tetranychus urticae Koch, 1896, na Europa, nos EUA e no Brasil. No Brasil, essa espécie tem ocorrência natural em todas as regiões onde há populações de ácaros tetraniquídeos. É encontrada em cultivos de morangos na região sul e sudeste (MAJOLO; FERLA, 2014; COOMBS; BALE, 2013; MORAES et al., 2004; FERLA et al., 2007).

O melhor desempenho do ácaro predador, predação e aumento das suas populações, é observado em temperaturas entre 23-26°C. Além disso, o aumento da população de T. urticae estimula o aumento da população de P. macropilis (FERLA et al., 2011; SILVA et al., 2005; VERONEZ et al., 2009). Apresenta baixa tolerância a inseticidas e fungicidas (POLETTI et al., 2008).

Essa espécie é produzida e vendida, com autorização do Ministério da Agricultura e Abastecimento, por duas empresas no Brasil (BRASIL, 2019a). O uso do predador é autorizado para o controle de T. urticae, em todas as culturas onde o ácaro praga tem ocorrência. O controle deve ser realizado no início da infestação. São vendidos em frascos ou em sachês.

d. Neoseiulus californicus

O Neoseiulus californicus é um ácaro predador de ocorrência natural no Rio Grande do Sul. É de grande importância no controle de ácaros tetraniquídeos, em pomares de macieiras e em morangueiros. Já é conhecida a tecnologia para a criação massal, para o uso em controle biológico inundativo (MONTEIRO, 2002). Tem eficiência conhecida no controle de T. urticae e Panonychus ulmi (Koch, 1896) e de (Acari: Tetranychidae). Além de tetraniquídeos, podem alimentar-se de Tarsonemidae, Tydeidae e de Eriophyidae e de alimentos alternativos como pólen e exudatos de plantas (MCMURTRY; CROFT 1997).

Esta espécie requer poucas presas para seu desenvolvimento e reprodução (MA; LAING, 1973; FRIESE; GILSTRAP, 1982; PALEVSKY et al., 1999). Adapta-se à flutuação populacional de suas presas e às alterações de temperatura, promovendo supressão consistente de ácaros praga (CROFT et al., 1998; GRECO et al., 2005; ESCUDERO; FERRAGUT, 2005). Também é viável em temperaturas de 10oC a 32oC (HART et al., 2002), sendo tolerante a alguns inseticidas e fungicidas (ESCUDERO; FERRAGUT, 2005; LIBURD et al., 2007; POLETTI; COLLETTE; OMOTO, 2008).

Essa espécie é produzida e vendida, com autorização do Ministério da Agricultura e Abastecimento, por três empresas no Brasil (BRASIL, 2019a). O uso do predador é autorizado para o controle de T. urticae, em todas as culturas onde o ácaro praga tem ocorrência, devendo ser realizada no início da infestação. São vendidos em frascos ou sachês.

3. Programas de controle biológico

Atualmente, com o intuito de encontrar novas soluções para o controle e reduzir o impacto de organismos considerados como pragas e minimizar o uso e os efeitos negativos de agentes químicos, o controle biológico assume grande importância global, pois se tornou a base de programas do Manejo Integrado de Pragas (MIP) (GALLO et al., 2002). O controle biológico consiste num fenômeno natural, que parte de inimigos naturais que regulam as populações de plantas e animais. Caracterizado por um mecanismo de diminuição de densidade, age de forma que a população de determinado organismo regula outra população. Estes efeitos naturais da regulação do crescimento populacional mantém o equilíbrio da natureza (DEBACH; ROSEN, 1991).

Um exemplo de controle biológico aplicado é a utilização de inimigos naturais para a supressão das populações da praga quando estabelecidas em níveis de danos econômicos, ou até mesmo liberações inoculativas para prevenir o aparecimento de pragas numa cultura. O controle biológico aplicado de ácaros foi adotado em várias culturas, em países do Hemisfério Norte e é incentivado por empresas que comercializam organismos para o controle de pragas, principalmente, em ambientes protegidos. O controle biológico auxilia o produtor a melhorar o desempenho da sua cultura, evitando os altos custos com pesticidas, possibilitando ao produtor aumentar sua rede de produção e ampliar sua variedade em cultivares, tanto na cultura do morango, como em outras de seu futuro interesse.

O controle biológico é caracterizado por dois modelos estratégicos: “Controle Biológico Natural” e “Controle Biológico Aplicado”. O controle biológico natural implica a utilização de estratégias conservadoras de ambiente para preservar e/ou aumentar as populações de inimigos naturais nativos, proporcionando níveis populacionais de pragas abaixo do nível de dano econômico (PARRA et al., 2002). Algumas ações de controle biológico natural são amplamente utilizadas, preservando e maximizando a ação dos inimigos naturais já existentes na cultura. Uma destas ações que se destaca é a preservação das plantas espontâneas próximas à cultura, que atuam como abrigo e reposição de inimigos naturais. Tais táticas beneficiam a ocorrência e a ação de diversos inimigos naturais das pragas da cultura (NECHOLS, 2003; FERNANDES et al., 2010).

O segundo modelo, o controle biológico aplicado, implica a multiplicação de inimigos naturais em biofábricas para liberações inoculativas e inundativas no campo. Liberações inoculativas ocorrem no momento em que a praga começa a colonizar a lavoura ou como forma de prevenção do surgimento das populações da praga. Esta estratégia mantém-se associada a atividades de monitoramento frequente da área de cultivo, a fim de verificar qualquer indício de aparecimento da praga. Baseia-se na utilização de um número limitado de inimigos naturais liberados, preferencialmente, em culturas perenes ou semiperenes e em florestas (VAN LENTEREN; BUENO, 2003). Liberações inundativas são medidas imediatas em campo, quando a praga atinge o nível de controle ou chegou ao nível de dano econômico. Parte de uma criação massal de inimigos naturais, liberados em grande quantidade para obter um efeito imediato de controle sobre a praga. Sugere-se sua utilização em culturas anuais, ou em cultivos cujo nível de dano mantém-se baixo, promovendo assim um rápido controle da praga nos estágios iniciais da infestação, ou em cultivos nos quais ocorre somente uma geração da praga (VAN LENTEREN, 2000).

Para o pleno funcionamento de um programa de Controle Biológico, é recomendado, primeiramente, conhecer os inimigos naturais, nativos ou exóticos, sua capacidade de aptidão e funcionalidade sobre um determinado grupo de pragas que deseja controlar. Inúmeros estudos em laboratório são necessários antes e depois da multiplicação destes inimigos naturais, em condições de laboratório (PARRA et al., 2002). Outro fator imprescindível para a implementação do programa é que os inimigos naturais que são liberados suportem as condições do ambiente e consigam multiplicar-se na lavoura-alvo.

Há fatores que podem alterar a efetividade de um programa de Controle Biológico, como, por exemplo, a utilização simultânea de agroquímicos. Não se recomenda a utilização de qualquer agente químico quando se está utilizando um programa de Controle Biológico, pois pode interferir negativamente nos inimigos naturais, além de ocasionar o surgimento de novas pragas (CLOYD, 2012; LIU et al., 2016; HILL et al., 2017).

Entre os membros mais conhecidos nos Programas de Controle Biológico estão os ácaros predadores, principalmente, os pertencentes à família Phytoseiidae (Acari: Mesostigmata). Estes inimigos naturais podem ser considerados os mais adequados para o uso em áreas agrícolas, principalmente, para o controle de ácaros e insetos que apresentarem status de praga. O uso destes ácaros na agricultura cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Estes predadores atuam principalmente sobre ácaros fitófagos e pequenos insetos nocivos às plantas.

Logo, o interesse na utilização dos predadores por parte da comunidade agrícola mundial aumentou significativamente, resultando assim no aumento da produção e na melhoria da qualidade do fruto a ser comercializado. Consequentemente, os gastos com métodos de prevenção e de aplicação de pesticidas por parte do produtor são reduzidos. A diminuição dos danos provocados por ácaros fitófagos também será significante. Conforme Monteiro et al. (2006), os custos dispendidos na utilização do controle biológico com ácaros predadores foram aproximadamente 16% menores se comparados com a utilização de pesticidas no controle de pragas.

A construção de empresas privadas que gerem uma linha comercial de produção de agentes de controle biológico tem sido fundamental para permitir seu uso prático pela comunidade agrícola.

4. Influências dos agroquímicos

A partir da década de 1940, o grande sucesso alcançado pelos agroquímicos sintéticos no controle de organismos que alcançaram o status de praga em agroecossistemas relegou as pesquisas sobre inimigos naturais a um plano secundário. A aparente alta eficiência dos agroquímicos dividiu os pesquisadores em dois grupos opostos: os defensores do uso de agroquímicos e os defensores do controle biológico. A maioria dos agroquímicos atua sobre os organismos vivos através do bloqueio de algum processo fisiológico ou bioquímico, sendo seu exato modo de ação difícil de ser definido (LUND, 1985; CASIDA; QUISTAD, 1998). O modo de ação pode ser sobre o sistema nervoso provocando a alteração da transmissão sináptica; sobre os reguladores de crescimento e inibidores de síntese de quitina e de respiração celular, além de outros. Devido à similaridade fisiológica dos mecanismos de transmissão dos impulsos nervosos entre artrópodes, os agroquímicos neurotóxicos são, de maneira geral, pouco seletivos, afetando organismos fitófagos e seus inimigos naturais, sejam eles predadores ou parasitoides. Nos últimos anos, uma grande preocupação tem sido dada aos efeitos adversos de agroquímicos sobre a saúde e o ambiente, o que tem direcionado o desenvolvimento de moléculas com maior seletividade a organismos não-alvos (por exemplo, inimigos naturais de pragas, polinizadores, mamíferos, aves e peixes, etc.) e menor persistência no ambiente (OMOTO, 2000).

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos (INDEA 2011; PIGNATI; MACHADO, 2011; AUGUSTO et al., 2012; CARNEIRO et al., 2012), devido ao modelo agrícola do agronegócio, que alia o uso intensivo e abusivo de agroquímicos. Devido a comunicações sociais (rótulos, orientações e receituários) deficientes e a dificuldades de percepção de perigo pelos trabalhadores e pela população, essas substâncias atingem de maneira imediata quem vende, quem transporta e quem manipula/pulveriza tais insumos, e, indiretamente, também suas famílias que moram dentro ou na periferia das plantações; também são atingidos aqueles que armazenam esses produtos dentro ou próximo de suas residências (PERES; MOREIRA, 2003; SOBREIRA; ADISSI, 2003; SILVA et al., 2005; PIGNATI; MACHADO, 2011).

Em decorrência desse modelo químico-dependente de agrotóxicos, a cadeia produtiva do agronegócio se configura como um processo de insustentabilidade ambiental, pois, no seu espaço, se cria um território com muitas e novas situações de vulnerabilidades ocupacionais, sanitárias, ambientais e sociais. Tais vulnerabilidades induzem a eventos nocivos que se materializam em trabalho degradante, acidentes de trabalho, intoxicações humanas, cânceres, más-formações, mutilações, sequelas, além da contaminação da água, do ar, da chuva e do solo com agrotóxicos e fertilizantes químicos, em todos os espaços ou setores da cadeia produtiva do agronegócio (PIGNATI, 2007).

As transformações ocorridas a partir dos anos 1980, não apenas no Brasil, mas em diferentes partes do mundo, caminharam na direção da estruturação de um regime fortemente dominado pelas grandes empresas transnacionais. Em fins dos anos 1990, a Cargill já controlava 40% das exportações de milho, um terço das exportações de soja e pelo menos 20% das exportações de trigo (MORGAN et al., 2009). Em contraste com o que ocorria décadas atrás, quando muitas empresas de sementes do setor privado e entidades públicas se dedicavam ao melhoramento de espécies vegetais, atualmente, dez grandes empresas controlam 74% das vendas de sementes. Contudo, os exemplos de concentração no setor agroalimentar se multiplicam: dez grandes corporações controlam 55% do mercado de fertilizantes; apenas quatro empresas dominam 99% das vendas de aves de corte; cinco grandes firmas controlam 55% das vendas de café no mundo (BD; ECONEXUS, 2013).

5. Desafios

Temos um cenário incipiente no que se refere às políticas públicas e ações de apoio à produção e ao consumo dos alimentos agroecológicos; logo, é premente a necessidade de oferecer organismos benéficos, mecanismos e ações estratégicas para a promoção da agroecologia e o fortalecimento de suas práticas de produção de alimentos saudáveis, a fim de garantir a agricultura familiar agroecológica, bem como, a soberania e a segurança alimentar. As políticas vigentes direcionadas à produção familiar têm induzido parcelas crescentes desse segmento a se subordinarem a setores do agronegócio. As políticas inovadoras em vigor são insuficientes, pouco abrangentes e fragmentadas, não se constituindo num corpo coerente de ações públicas voltadas à promoção da agroecologia. A efetividade de uma política que promova a agroecologia depende, portanto, não só da reorientação e da adequação das estratégias de apoio à produção familiar, como também, da capacidade de integrar e de articular os organismos públicos encarregados de formulá-la e de implementá-la. Tal política deve ser um instrumento de desenvolvimento orientado para o reconhecimento e o respeito à diversidade dos contextos ecológicos e socioculturais que caracterizam os modos de vida da agricultura familiar camponesa e das populações e comunidades tradicionais. Deve também promover a agroecologia e a produção orgânica como forma de ampliar, fortalecer e consolidar a agricultura familiar de povos e comunidades tradicionais, nos campos, nas florestas e nas cidades, potencializando sua capacidade de cumprir com múltiplas funções de interesse público na produção soberana, em quantidade, qualidade e diversidade de alimentos e demais produtos da sociobiodiversidade; na conservação do patrimônio cultural e natural; na dinamização de redes locais de economia solidária; na construção de relações sociais justas entre homens e mulheres e entre gerações e no reconhecimento da diversidade étnica (ABRASCO, 2012).

Há, também, a necessidade da pesquisa como fator preponderante na produção e na disponibilização de conhecimento para a qualificação dos processos e dos produtos. Assim, a produção de conhecimento associada às universidades e aos centros de pesquisa é importante na busca de solução de problemas, bem como, da adaptação de processos e produtos a um determinado ambiente. Recentemente, Eliseu Alves, fundador da Embrapa sugere que o “desenvolvimento está mais relacionado à gestão com informações atualizadas sobre os processos pelo agricultor do que ao uso de uma determinada semente”. Neste contexto, o controle biológico é uma ferramenta que ressurgiu com maior intensidade nos últimos anos com o objetivo de auxiliar os produtores na manutenção de populações de organismos abaixo do nível econômico de dano. As decisões levam em conta novas tecnologias que enfatizem o controle de pragas com o uso de tecnologias limpas. Este ressurgimento está ligado às Universidades onde são desenvolvidos estudos de identificação, de ecologia e de caracterização do potencial de controle de organismos nativos. Destes processos surgem, normalmente, pacotes tecnológicos prontos com inimigos naturais definidos e caracterizados para o controle biológico aplicado de certas pragas, a serem utilizados em sistemas produtivos ou por produtores que utilizam tecnologias limpas.

6. Comercialização de inimigos naturais

Desde a década de 1960, organismos são comercializados com o objetivo de controlar populações de organismos que alcançaram o status de pragas em agroecossistemas, jardins, viveiros, estufas etc. Entretanto, a partir da década de 1970-80, ocorre um grande incremento na área, com o surgimento de um grande número de empresas dedicadas à produção de inimigos naturais (HUNTER, 1997). Comumente denominadas de biofábricas, estas empresas produzem inimigos naturais, que podem ser predadores, parasitoides ou entomopatógenos, que são vendidos aos produtores para controlar pragas em suas produções. Estas biofábricas surgiram nos Estados Unidos (EUA) e na Europa, onde foram liberados em agroecossistemas, sendo que, nos EUA, a liberação ocorreu em grandes áreas, enquanto na Europa, o uso é mais comum em casas de vegetação.

Atualmente, estas biofábricas estão presentes em todos os continentes com maior ou menor intensidade, de acordo com o desenvolvimento tecnológico e científico dos países. Na América do Sul, apenas na Colômbia existem mais de 20 empresas comercializando inimigos. Também há destas empresas na Venezuela e no Chile (PARRA, 2002). No Brasil, atualmente, existe um número significativo de agentes biológicos de controle registrados, que são comercializados por empresas (biofábricas) (BRASIL, 2019b).

O pleito de registro, baseado numa especificação de referência já publicada, é analisado pelos órgãos responsáveis, a saber: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ministério da Saúde (Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA) e Ministério do Meio Ambiente (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis – IBAMA). Após análise e atendimento de eventuais pendências ou solicitações, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é o órgão que emite o registro (BRASIL, 2019b).

A legislação brasileira da produção orgânica dá tratamento diferenciado aos insumos destinados à agricultura orgânica. Os agrotóxicos ou afins que tiverem em sua composição apenas produtos permitidos na legislação de orgânicos recebem, após o devido registro, a denominação de produtos fitossanitários com uso aprovado para a agricultura orgânica. Por serem considerados produtos de baixo impacto ambiental e também de baixa toxicidade, a legislação foi idealizada no intuito de acelerar o seu registro, sem deixar de lado a preocupação com a saúde, o meio ambiente e a eficiência agronômica. Maiores informações acerca do registro e procedimentos, bem como, da legislação podem ser acessados no site do Ministério da Agricultura (BRASIL, 2019b).

FAÇA A SUA ASSINATURA

Ou clique no link:

https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal

Fonte

JOHANN, Liana; DALMORO, Marlon; MACIEL, Mônica Jachetti. Alimentos orgânicos: dinâmicas na produção e comercialização. Lajeado – RS: Editora Univates, 2019.

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Murilo Salvador
Murilo Salvador
Técnico Agrícola com Habilitação em Agropecuária (IFES); Licenciado em Ciências Agrícolas (IFES) e Bacharelando em Medicina Veterinária (UNESC).