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Monte Pascoal: Primeira Cultivar de café para Bahia

Confira o artigo sobre a cultivar de café conilon monte pascoal, escrito por Fábio Luiz Partelli, et all.

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Introdução

A Universidade Federal do Espírito Santo – UFES em parceria com agricultores vem desenvolvendo diversas pesquisas. No casso específico, obtiveram o primeiro registro de uma cultivar de Coffea canephora adaptada para o Sul da Bahia, em altitude inferior a 500 metros. O registro foi realizado junto ao Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento – MAPA, e a nova cultivar foi denominada de MONTE PASCOAL (n. 44082), sendo mais uma contribuição para a cafeicultura, desta vez, para ser cultivada na região do Sul da Bahia, com clima específico, diferente da maior parte do Estado do Espírito Santo. É uma cultivar de Coffea canephora Pierre ex A. Froehner (Conilon ou Robusta), composta por 06 genótipos/clones, que alcançaram produtividade superior a muitos outros genótipos avalizados nas mesmas condições.

Participaram do registro como melhoristas os Eng. Agrônomos Fábio Luiz Partelli (coordenador Prof. da UFES), André Monzoli Covre (Agricultor), Gleison Oliosi (UFES), e o produtor rural Daniel Trevizani Covre. O registro foi realizado pelo Instituto de Inovação Tecnológica (INIT) da UFES.

No Brasil, até 16 de maio de 2020, existiam 32 cultivares registradas de C. canephora composta por mais de um genótipo e também cultivares composta por um único genótipo e neste rol de cultivares, destaca-se a cultivar Monte Pascoal, a primeira recomendada exclusivamente para o Sul da Bahia.

Em dezembro de 2013, diversos genótipos foram selecionados em diversos municípios do Espírito Santo e Bahia, sendo em seguida propagados vegetativamente por estaquia. Foram plantados em 10 de abril de 2014 em uma mesma lavoura, num “ensaio de competição” na época propriedade do Senhor Ademir Trevizani, atualmente propriedade do Senhor Paulo Marchete. O plantio foi composto por 43 genótipos (42 propagados por estacas e um por sementes), no município de Itabela, Bahia, a aproximadamente 140 metros de altitude.

A área experimental está localizada na Latitude: 16°36’52” S e Longitude: 39°30’33” W. O clima foi classificado como Aw, ou seja, tropical com inverno seco e verão chuvoso. Temperaturas média das mínimas acima de 15°C (meses de julho e/ou agosto) e média das máximas acima de 35°C nos meses de janeiro e/ou fevereiro em alguns anos.

Os genótipos que fizeram parte do “ensaio de competição” foram dispostos em delineamento experimental em blocos casualizados, com três repetições, sendo cada repetição composta por sete plantas. O espaçamento utilizado para plantio foi de 3,5m X 1m, ocupando 3,5 m2 por planta. Foram realizadas podas para controle de número de ramos ortotrópicos, mantendo o padrão de 12.000 a 15.000 hastes por hectare. Em todos os anos experimentais foram realizadas pelo menos uma capina mecanizada e uma capina química. Foram aplicados fertilizantes, inseticidas e fungicidas, durante os anos de estudo. A área experimental foi irrigada durante todos os anos, até a última safra em 2019.

Para analisar a estabilidade e adaptabilidade dos materiais genéticos avaliados neste estudo foram utilizados dados de produtividades correspondentes a quatro colheitas (2016, 2017, 2018 e 2019). As colheitas foram realizadas nas parcelas em separado para cada genótipo, medindo-se a produção em litros por parcela, para posterior conversão em sacas beneficiadas por hectare, considerando-se o rendimento individual de cada genótipo, que foi baseado em duas safras e extrapolado para as demais. Com o espaçamento das plantas, calculou-se a produtividade de cada genótipo.

Dentre todos os materiais avaliados no ensaio, considerando características como produtividade, sistema radicular, maturação, vigor e resistência a pragas e doenças foram selecionados seis genótipos julgados superiores (AD1, AP, Imbigudinho, LB1, P2, Peneirão), para constituir a nova cultivar clonal, denominada MONTE PASCOAL. A média das 4 colheitas dos 6 genótipos foi de 130 sacas por hectare por ano, enquanto a média dos demais genótipos foi inferior a 100 sacas por hectare por ano (Tabela 1). A produtividade média da nova cultivar é muito superior à média de produtividade do Estado da Bahia e do Brasil (CONAB, 2020).

Durante os anos de avaliação, foi verificada a boa adaptação dos genótipos às condições de cultivo, visto seu bom desempenho em crescimento (aéreo e do sistema radicular) e produção. Não foi verificado ataque severo das principais pragas e doenças, com as plantas mantendo-se vigorosas e com bom enfolhamento.

Dessa forma, a nova cultivar (variedade), apresenta características desejáveis, sobretudo, alta produtividade para as condições do Sul da Bahia, o que permitirá grande aceitação entre os cafeicultores, podendo ser cultivado em condições climáticas similares às que foram cultivadas (aproximadamente 140 metros de altitude). Portanto, recomendada para os para o Sul da Bahia em altitude inferior a 500 metros. Ressalta-se que este foi o primeiro trabalho de campo com esse objetivo para o Estado da Bahia.

O número de genótipos selecionados assegura um bom nível de polinização cruzada. Apesar do registro de uma cultivar de 6 genótipos, a equipe de trabalho fomenta que o agricultor tenha a liberdade de plantar os clones na forma que achar conveniente, desde que com orientação técnica, visto que a espécie C. canephora é alógama e possui auto-incompatibilidade gametofítica.

Não obrigatoriamente há necessidade do plantio dos seis clones (variedade fechada) numa mesma lavoura em linha ou misturados. O agricultor, por exemplo, pode escolher um dos clones como principal e usar outros clones, da cultivar MONTE PASCOAL e/ou outros clones, como cruzadores, intercalando suas linhas para garantir a fecundação plena da lavoura.

Agradecimento especial aos agricultores, que ao longo de anos veem fazendo sua própria seleção e cultivando genótipos superiores e adaptados em vários ambientes do Brasil. Para isso, foi mantido o nome dos clones selecionados para compor a cultivar MONTE PASCOAL da forma em que eles são conhecidos pelos agricultores. Coube aos envolvidos, realizar as avaliações no campo, comparando diversos genótipos no sul da Bahia. Uma contribuição científica na caracterização e definição de quais são os melhores clones, entre os estudados, quando cultivados no sul da Bahia, o que conduziu até o registro da primeira cultivar específica para o sul da Bahia.

Origens dos clones

A caracterização de uma planta ou clone de Conilon produtivo exige alguns anos de avaliação a campo em condições reais. Esse fato, faz com que na grande maioria das vezes, os clones ou plantas promissoras sejam “descobertos” pelos cafeicultores. Assim, descreve-se a seguir as informações e origem dos genótipos que compõe a nova cultivar MONTE PASCOAL:

AD1: Planta encontrada pelo agricultor Ademir Trevizani, em uma lavoura de semente no município de Itabela, Sul da Bahia. Foi encontrada na propriedade do Senhor Ademir por volta de 2005, sendo em seguida multiplicada nos plantios da família e região.

AP: Planta encontrada pelo agricultor Adilson Pereira, em sua propriedade, no município de São Mateus, Norte do Espírito Santo. Planta selecionada em 2002, numa lavoura propagada por sementes. Também é conhecida como Tecnoverde.

LB1: Selecionado em Sooretama pelo viveirista e produtor rural Antonio Luiz Bachetti, o popular Tonin Bachetti.

P2: Genótipo selecionado pelo produtor Paulo Benacchi, no município de Marilândia – ES.

Imbigudinho: Planta encontrada pelo agricultor José Américo Moraes (conhecido como Mequinho) em sua propriedade, por volta do ano de 2008, na localidade de Paraju, município de Vila Valério – ES. Posteriormente o Senhor Roque Lane Rosa reproduziu e propagou o genótipo na região.

Peneirão: Genótipo encontrado pelo agricultor Gerson Cosme em sua propriedade na localidade do Giral, município Jaguaré – ES. Encontrou 22 plantas iguais, numa lavoura propagada por estaca e cultivada de forma orgânica. As mudas da lavoura eram provenientes do viveirista Alercio Marinato – Jaguaré. A partir de ano 2010 a planta passou a ser cultivada em maior escala pelo próprio agricultor e outros cafeicultores da região.

Outros estudos/pesquisas coordenadas pelo Núcleo

O Núcleo de Excelência de Pesquisa em Café Conilon é constituído por profissionais que se dedicam à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico do café Conilon/Robusta (Coffea canephora). É composto por diversos professores/pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação (Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado). Realizou e realiza diversas pesquisas sobre o Café Conilon, principalmente na área de melhoramento, fisiologia, nutrição e manejo de forma geral. O núcleo tem sua base no Laboratório de Pesquisas Cafeeiras da Universidade Federal do Espírito Santo no Campus de São Mateus.

Segue os principais trabalhos em andamento relacionado a seleção de genótipos promissores/superiores:

1. Ensaio de competição com 43 genótipos promissores em Nova Venécia – ES;

2. Ensaio de competição com 28 genótipos em Venda Nova do Imigrante – ES (25 Coffea canephora e 3 C. arabica);

3. Ensaio de competição com 16 genótipos em Alta Floresta D’Oeste – Rondônia;

4. Ensaio de competição com 44 genótipos em Aimorés – Minas Gerais;

5. Atuação efetiva em parcerias internacionais na área de fisiologia, bioquímica e molecular em Coffea sp em condições de alta concentração de CO2, alta temperatura e défice hídrico; e

6. Introdução, orientação técnica e pesquisa em Coffea em Moçambique, numa cooperação trilateral entre Brasil (UFES e Ministério das Relações Exteriores), Portugal (Lisboa e Camões) e Moçambique (Parque Nacional da Gorongosa).

Essas ações permitem a realização de pesquisa aplicada e científica. Além disso, são parte fundamental na formação de recursos humanos, por meio de visitas nas áreas experimentais, dia de campo, iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Estas ações e projetos mencionados estão ligados aos Programas de Pós-Graduação em Agricultura Tropical (PPGAT) e de Genética e Melhoramento (PPGGM), ambos da Ufes. Envolvem também a participação e apoio de diversos agricultores e parceiros institucionais como: Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Instituto Federal do Espírito Santo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Grupo Khas, Emater-MG e outras. Também conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT).

FAÇA A SUA ASSINATURA

Ou clique no link:

https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal

Fonte

PARTELLI, Fábio Luiz; CAMPANHARO, Alex. Café Conilon: Desafios e Oportunidades. Alegre – ES: CAUFES, 2020.

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Murilo Salvador
Murilo Salvador
Técnico Agrícola com Habilitação em Agropecuária (IFES); Licenciado em Ciências Agrícolas (IFES) e Bacharelando em Medicina Veterinária (UNESC).